Hepatite, suspiro e paredão

No caos de uma reforma em casa eu, com oito ou nove anos, fiquei surpreso e feliz com o diagnóstico de hepatite. No retorno ao consultório, o médico disse que eu não poderia ficar andando muito pela casa pois tinha algo de errado com meu fígado. Aparentemente, os fins de semanas seguidos no clube não foram tão saudáveis quanto eu pesava. A má notícia era o repouso monástico e, claro, a urina escura. Porém, os últimos dois meses de aula daquele ano já eram; esta parte lembro de ter entendido perfeitamente.

O dilema da minha mãe era como manter quieto um garoto numa casa em reforma. Enquanto ela tinha essa preocupação, minha madrinha me entupia de suspiro (aquele doce leve em formato de gota e, para mim, doce demais). Um amigo do meu pai, grande figura até hoje na família ele, ofereceu um aparelho que podia ajudar no descanso obrigatório e inquestionável, pelo menos era o que afirmavam.

Acordei no quarto dia de folga e, depois de cruzar uns quartos cheios de tijolos e massa-corrida por todos os lados, vi uma caixa preta com uns botões parecidos demais com o da radiola da minha casa. Caso não conheça a expressão acima, por favor, faça uma busca no Google. A resposta deve ser algo como aparelho primitivo de tocar discos – este muitos ainda se lembram.

O treco, um TeleJogo, já estava ligado (plugado não dá para usar, pois eram fios e parafusos mesmo) na tv de 15 polegadas preto e branco. Minha mãe falou que era um joguinho para distrair. Beleza então, pois jogos sempre foi comigo mesmo. Liguei, vi umas barrinhas de um lado e de outro e um ponto no meio. Para os acostumados com gráficos destruidores hoje a interpretação daquilo pode até demorar um pouco para ser completada. Porém, como o futebol na rua de terra da minha casa era a atividade quase única do bairro, não tive dúvida, era um jogo sobre futebol; mesmo faltando muita gente para formar um time, porém, sempre gostei de gol a gol.

Aquele dia, que gostaria muito de saber exatamente qual foi, marcou minha imersão no mundo dos games. Escolhi esta palavra justamente para deixar claro como me senti naquele momento e, até hoje, quando descubro algo interessante num jogo eletrônico.

Não precisa dizer que o TeleJogo foi o melhor remédio para a hepatite, da qual nem me lembro o fim. Eu ficava o dia todo, literalmente, jogando paredão e futebol, sozinho. No segundo caso, tive de desenvolver alguma habilidade com a mão esquerda, pois meu irmão tinha só três ou quatro anos e não era um adversário muito bom.

Por causa da importância que o TeleJogo teve na minha imersão no mundo dos games, foi difícil demais me livrar dele. Bom, na verdade, o amigo do meu pai ficou com dó e deixou ele comigo; mas minha mãe montou um rígido esquema de controle quando voltei às aulas no ano seguinte.

No próximo post, o Natal do Odyssey!

~ por Quinante em Setembro 11, 2008.

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